Resumo Estudo etnometodológico das práticas de registro no serviço de radiologia intervencionista de um hospital público
DOI:
https://doi.org/10.70745/bjrtr.v2.89Palavras-chave:
Radiologia intervencionista, Etnometodologia, Registros clínicos, Documentação, Prática profissionalResumo
Este trabalho propõe uma análise etnometodológica das práticas de registro e documentação no serviço de radiologia intervencionista de um hospital público da cidade de Belo Horizonte, Minas Gerais. A partir de uma base de dados institucional que reúne informações sobre procedimentos realizados, tempo de duração, complicações, vias de acesso, uso de contraste, dispositivos, anestesia e transferências de cuidado, busca-se compreender como os profissionais constroem sentido e organizam suas ações cotidianas por meio dos registros clínicos. A etnometodologia, enquanto abordagem sociológica, permite investigar os métodos que os indivíduos utilizam para tornar suas práticas compreensíveis e compartilháveis. Neste estudo, os registros não são tratados apenas como dados técnicos, mas como artefatos sociais que expressam rotinas, decisões, interpretações e negociações entre os profissionais envolvidos. O objetivo é compreender como os registros são produzidos, o que é considerado relevante, como se articulam com a comunicação entre equipes e como refletem a cultura organizacional do serviço. A metodologia adotada é qualitativa, com base na etnometodologia de Harold Garfinkel, e utiliza como fonte principal a planilha de registros de procedimentos do serviço de hemodinâmica cedidos por um hospital público, referentes aos realizados no ano de 2024. A análise considera elementos como a estrutura dos campos preenchidos, os padrões de linguagem utilizados, os protocolos de transferência de cuidado (SBAR/ISBAR), e os critérios implícitos para inclusão de informações. São observadas também as variações entre registros de diferentes profissionais, os usos de abreviações, os campos livres e os modos de descrição de complicações e recomendações. Os resultados indicam que os registros funcionam como dispositivos de coordenação entre múltiplas equipes (radiologia, enfermagem, anestesia, cardiologia, neurologia, vascular), e que há uma lógica compartilhada de priorização de informações clínicas e operacionais. A presença de campos como “urgência”, “complicações”, “via de acesso” e “tempo de espera” revela uma preocupação com a rastreabilidade e a segurança do paciente. No entanto, também se observam lacunas, repetições e variações que indicam espaços de improviso e adaptação às condições reais de trabalho. A análise da base revelou também que não há registros dos parâmetros de exposição à radiação, como Kerma ar de referência (Ka,r), produto Kerma-área (PKA) e máxima dose na pele (MDP). Esses dados, embora disponíveis nos equipamentos, não são incorporados aos registros clínicos, o que pode indicar uma baixa prioridade atribuída à radioproteção nos procedimentos. Essa ausência documental compromete a rastreabilidade da dose recebida pelo paciente e limita a capacidade de avaliação dos riscos associados à exposição. A análise etnometodológica permite compreender que os registros são construções situadas, que refletem não apenas a técnica, mas também a cultura profissional, os fluxos institucionais e as relações interpessoais. A documentação, nesse contexto, é uma prática social que organiza o cuidado, legitima decisões e articula saberes diversos. O estudo contribui para o reconhecimento da radiologia intervencionista como campo complexo e interdisciplinar, e para o aprimoramento das práticas de registro como ferramenta de comunicação, segurança e gestão.



